Transporte por ônibus no Rio é alvo de críticas de usuários e motoristas

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O painel do ônibus ameaça cair a cada solavanco: o motorista precisa segurá-lo quando passa por um buraco. O marcador de combustível desapareceu. Só um lado do limpador de para-brisa funciona. Os pneus estão carecas, um farol quebrou, e as portas não fecham direito. Há meses que o elevador para embarque e desembarque de pessoas com deficiência enguiçou. Bancos estão rasgados e pichados. A última vistoria no Detran-RJ foi realizada três anos atrás.

Foto: Reprodução

Parece improvável, mas se trata de um ônibus usado para o transporte de centenas de passageiros por dia. Circula na linha 850 (Mendanha-Campo Grande), operada pela empresa Pégaso, do consórcio Santa Cruz.

É, de fato, um caso extremo, porém simboliza os riscos aos quais os cariocas são expostos no sistema de transporte mais utilizado do Rio.

Como numa crônica de uma tragédia anunciada, os problemas nos ônibus da cidade ganham contornos alarmantes na Zona Oeste, por onde roda o veículo da Pégaso. São justamente do consórcio Santa Cruz — que atende a bairros como Campo Grande, Bangu, Realengo e Sepetiba — seis das dez piores linhas do Rio, segundo um ranking da Secretaria municipal de Transportes (SMTR) baseado em reclamações registradas de junho a agosto. Por incrível que pareça, a 850 não faz parte da lista, mas tem semelhanças com aquelas que estão no topo desse pódio inglório: a 822 (Concundinha-Campo Grande) e a 891 (Sepetiba-Mato Alto). — Os ônibus sempre circulam imundos.

É muito comum quebrarem no meio de uma viagem. Ar-condicionado, nem pensar! No verão, viram um forno — queixa-se o metalúrgico Júlio César de Lima, que, na última terça-feira, embarcou num outro veículo da 850, também com licenciamento vencido desde 2014.

A situação reflete um envelhecimento da frota do Rio. Por vários anos, ela reluziu como a mais nova do Brasil. Em 1996, seus veículos tinham uma idade média de 2,52 anos. A partir daí, foi crescendo até 2008, quando atingiu 4,8 anos. Em 2009, voltou a cair, até chegar a um patamar de 3,27 anos em 2011. Depois, subiu de novo, chegando aos atuais 4,8 anos, segundo dados do sindicato das empresas do setor, o Rio Ônibus.

Muitos ônibus que andam caindo aos pedaços sequer podem ser considerados velhos — ficam abaixo do limite de oito anos de uso para os veículos comuns de transporte coletivo ou do máximo de seis para os micro-ônibus. Quase sempre, o problema é, realmente, a manutenção. Na linha 822, a que tem pior nota no ranking negativo de conservação da SMTR, um dos micro-ônibus parados terça-feira passada no ponto final, próximo à estação de trem de Campo Grande, foi fabricado em 2014. Os passageiros reclamavam que o ar-condicionado estava quebrado, e o motorista confessava que o sistema de freios não era confiável.

Problemas constantes, a julgar pelos relatos de quem viaja ou trabalha na linha — que, só em agosto, recebeu quase 178 mil passageiros. — Acredito que 90% dos carros da linha 822 estão com o ar-condicionado ruim ou refrigerando pouco. Os carros não têm manutenção. A empresa só quer dinheiro — disse um motorista, que pediu para não ser identificado por temer represálias. — Quando constato algum problema, é meu dever informá-lo a um fiscal, para que o veículo não saia da garagem. Mas, recentemente, passei três semanas notificando a empresa sobre defeitos no freio e na direção do ônibus que dirijo. Ninguém fez nada, e, um dia, não consegui parar. Bati num carro. A vida de muitas pessoas ficou em perigo — contou um outro motorista, que também pediu anonimato.

Nem mesmo quando os veículos aparentam bom estado os passageiros escapam de problemas. No terminal de Campo Grande, ainda na terça-feira passada, José Francisco Sobrinho, de 79 anos, teve de esperar um segundo ônibus da linha 851 (Campo Grande-Escola Amazonas) chegar ao local para conseguir embarcar. Há quatro meses, devido a uma cirurgia no fêmur, ele passou a depender de uma cadeira de rodas. Desde então, sofre para fazer viagens. — Os elevadores para pessoas com deficiência quase nunca funcionam. Às vezes, descem um pouco, engasgam e não sobem mais. Para sair de casa foi pior, só conseguir embarcar no quinto ônibus que passou. Os outros estavam com os equipamentos quebrados — lamentou José Francisco. Na Zona Oeste, viajar de ônibus muitas vezes é um desafio. Na segunda-feira, contou um motorista, três veículos da linha 830 (Pedregoso-Campo Grande) enguiçaram. Usuária da 893 (Jardim Palmares-Campo Grande), a vendedora Letícia da Silva disse que os problemas nos freios da frota se repetem, o que faz do medo seu companheiro constante no caminho de casa até o trabalho. Já um micro-ônibus da 869 (Santa Margarida-Campo Grande) circulava com um vidro rachado.

E não era difícil encontrar veículos com pneus carecas e retrovisores quebrados. — Peguei um ônibus sem velocímetro. Pior é quando as viagens são longas, como as das linhas que vão para o Centro pela Avenida Brasil. Parece que fazem de tudo para que a gente opte pelos frescões, que custam R$ 14 — reclamou o passageiro Washington Bonfim. — Trabalhamos em ônibus precários e somos pressionados pela empresa a aceitar as más condições da frota. Se volto para a garagem com um carro sem condições de rodar, a empresa conta o tempo que fico parado como horário de descanso. Ou seja, quando retorno para a rua e faço hora extra, não sou pago por isso. E, dependendo da avaria do veículo, sou obrigado a cobrir parte do custo do reparo — contou um motorista, pedindo para que seu nome fosse mantido em sigilo.

Apesar de a Zona Oeste concentrar tantos problemas, as situações absurdas não são uma exclusividade da região. No fim de outubro, imagens do volante quebrado de um ônibus da linha 350 (Irajá-Passeio, do consórcio Internorte) causaram indignação nas redes sociais.

No último ranking negativo da SMTR referente à conservação de veículos, aparecem também, entre as piores, linhas como a 865 (Pau da Fome-Taquara, do consórcio Transcarioca), a terceira com mais queixas na ouvidoria da prefeitura, a 432 (Vila Isabel-Gávea), do consórcio Intersul, e a 325 (Ribeira-Castelo, via Linha Vermelha), do Internorte. — Evito pegar a linha 239 (Água Santa-Castelo, do consórcio Internorte). Sempre tem ônibus velhos, com vidros que batem sem parar e bancos rasgados — disse o contador Eduardo de Souza, morador do Rio Comprido.

Linhas sumiram das ruas Algumas linhas simplesmente desapareceram das ruas. Ao cruzar dados de contratos da SMTR com os quatro consórcios da cidade e de relatórios de operações por linha (divulgados pela secretaria), o GLOBO verificou que 25 delas não rodam mais pela cidade. E isso é facilmente comprovado nas ruas. Uma das que sumiram é a 626 (Saens Peña-Muda), que, de acordo com despachantes de outras linhas da região da Grande Tijuca, deixou de existir quando foi inaugurada a estação Uruguai do metrô. Já o Terminal Centro Olímpico, um legado dos Jogos de 2016 que se tornou um elefante branco na Barra, deveria ser o destino de pelo menos duas linhas que, agora, só existem no papel: a 800 e a 856, ambas para a Taquara.

Na Zona Oeste, os passageiros dão conta do sumiço da 933 (Coqueiros-Fundão), da 365 (Mendanha-Tiradentes), da 364 (Jardim Bangu-Tiradentes) e da 388 (Santa Cruz-Candelária). E, em Cascadura, ninguém conhece a 751 (Jardim Novo Realengo-Cascadura), que deveria ter seu ponto final no bairro.

A SMTR — comandada pelo vice-prefeito Fernando Mac Dowell — destacou que todas as linhas são alvos permanentes de ações de fiscalização. O órgão frisou que vem estudando a reformulação do código disciplinar do sistema rodoviário municipal, elaborado em 2012, “para aplicação de multas mais pesadas”.

Fonte:
Jornal Extra Online
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